segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Introdução ao estudo dos Evangelhos (Tópicos, Anotações)

[EV] (grego para "bom", "perfeito", "melhor")
+
[ANGELHO] (mesma raiz grega da palavra "anjo" = "mensageiro"; significa "mensagem", "notícia").

  • "Evangelho" significa "melhor mensagem" ou "boa notícia" ou "boa nova".

Strito Sensu, Evangelho representa cada um dos 4 livros, do Novo Testamento (NT), que narram a vida, morte, ressureição e ensinamentos de Jesus (p. ex., "Ler os Evangelhos") : Mateus (Mt), Marcos (Mc), Lucas (Lc) e João (Jo).

Lato Sensu, Evangelho é a totalidade dos ensinamentos de Jesus (ex. "Pregar o Evangelho"), é o equivalente à Torá dos Judeus ("torá" significa "instrução" ou "ensinamento" em hebraico e o termo também se refere ao conjunto dos 5 primeiros livros da Bíblia ou "Pentateuco").
  • Evangelhos sinóticos: Mt, Mc e Lc (os 3 primeiros na ordem tradicional em que aparecem na bíblia), chamados "sinóticos" porque possuem muitos paralelos entre si enquanto têm ênfases semelhantes. Uma hipótese bem aceita é que Mt e Lc foram baseados em Mc e em uma hipotética (e não-identificada) fonte "Q". Em comparação com os sinóticos, Jo parece ter uma ênfase bastante diferente.
  • Lc e Jo são os únicos nos quais os respectivos autores se identificam, sendo ainda Lc o único evangelho escrito na forma de carta (remetida a Teófilo).
  • Mt e Mc têm sua autoria atribuída apenas pela tradição.
  • O idioma original do NT mais amplamente usado para gerar as traduções da Bíblia, é o grego, mais especificamente o dialeto koinê (linguagem mais popular e simples, a linguagem "do povão" do séc. I, por assim dizer). Mas pode-se questionar se todos os livros do NT foram realmente escritos originalmente em grego ou se as versões gregas de que dispomos são tradução de uma versão original em outro idioma (aramaico, por exemplo).
  • As fontes usadas para tradução do NT são de dois tipos (que variam menos de 1% entre si):

Textus receptus ou Texto Recebido (TR): representa a maioria dos manuscritos de que dispomos; foi usado nas traduções mais antigas da Bíblia, possui trechos considerados, pelos críticos do TR, como adições posteriores (p. ex., os que fazem vaga referência às pessoas da Trindade) - usado por algumas igrejas evangélicas de matriz mais conservadora;

Texto Crítico (TC): representa os manuscritos mais antigos de que a Arqueologia dispõe; é usado desde o séc. XIX e baseia-se em tentar reconstruir o mais próximo possível o texto original - usado pelos católicos, protestantes e aadêmicos.

Essas diferenças entre TR e TC são poucas e de importância ínfima.
  • Cada evangelho tem um público-alvo e uma ênfase na narrativa:

Mt destina-se aos judeus, traz o Sermão da Montanha (considerado, por muitos, como o trecho mais importante do NT e que resumiria os ensinamentos de Jesus) entre os capítulos 5 e 7, narra o nascimeto de Jesus;

Mc é o mais curto dos evangelhos, destinado aos gentios (pagãos, não-judeus), enfatiza a ação, os milagres de Jesus e tem uma escrita mais dinâmica ("direta ao ponto"; a narrativa começa com Jesus já adulto - sendo o mais curto e sendo escrito para não-judeus, Mc é o livro mais traduzido da Bíblia;

Lc é o único que se preocupa em narrar os fatos em ordem cronológica e o que traz mais detalhes sobre fatos anteriores ao nascimento de Jesus (Lucas era provavelmente um prosélito, um pagão/gentio convertido ao judaísmo; tinha um estilo de escrita que deixa transparecer sua origem cultural greco-romana);

Jo enfatiza a divindade de Jesus e longos discursos dele, foi escrito para gentios e não narra o nascimento de Jesus.
  • Existem supostas discrepâncias entre as narrativas dos evangelhos, mas elas são facilmente solucionáveis. Alguns exemplos com suas hipóteses solucionadoras seriam:

1. Genealogia de Jesus aparece apenas em Mt e Lc, mas não "bate" uma com a outra (Possivelmente uma seguiria a linha de José e outra a de Maria; Mt pode ter sido escrito em aramaico, onde fica mais evidente que um José mencionado é pai e não marido de Maria);

2. Sermão da Montanha aparece diluído exceto em Mt (provavelmente Jesus ensinava repetidamente as mesmas coisas em diferentes ocasiões);

3. Ordem dos eventos não é a mesma (a literatura hebraica não necessariamente estava precupada com narrativas em ordem cronológica, tanto que apenas Lucas se prontifica a fazer uma narração odenada, coisa - aliás - que ele enfatiza duas vezes, deixando supor que um dos objetivos de ele ter escrito foi para colocar na ordem cronológica os eventos que estavam sendo narrados fora de ordem em outras fontes);

4. Narrativas da visita ao túmulo de Jesus não coincidem (provavelmente houve mais de uma visita).
  • Os evangelhos canônicos (que estão dentro da Bíblia) foram escritos por testemunhas oculares (fontes primárias) ou por pessoas que conviveram com estas (fontes secundárias) no primeiro século.
  • Os "evangelhos" apócrifos ou pseudepígrafos foram escritos após o séc. II, por pessoas que não testemunharam os fatos nem tiveram contato direto com testemunhas. Foram escritos por adeptos da seita dos gnósticos e com muita licença literária (os autores assinaram, como era usual na época, com nomes de outras pessoas; assim, p. ex., é certo que o evangelho de Tomé foi escrito muito depois de Tomé ter morrido, o mesmo se passando com o de Maria Madalena e assim por diante).
  • Já que alguns episódios da vida e dos ensinos de Jesus aparecem também nas epístolas, não seria inorreto dizer, lato sensu, que não apenas os livros chamados "Evangelhos" fazem jus a esse nome. Em particular, a carta aos Hebreus poderia bem ser vista como tal.
  • Novo Testamento = Evangelhos + Epístolas (incluindo Atos e Apocalipse).
  • Os Evangelhos têm especial importância para os cristãos, o que fica muito evidente na liturgia de algumas igrejas: lê-lo em pé, priorizá-lo em relação às outras leituras, colocar o Livro dos Evangelhos em uma cadeira durante os concílios e sobre a cabeça de alguém que está sendo ordenado bispo, o próprio uso de termos como "cristão evangélico" e "pegar o evangelho" etc.

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